A uma

Ela é aquela, a uma
Que surgiu do nada
E não deixou nada de pé

Ela é a amálgama das minhas facetas
Que eu sequer sabia que existiam
E assim se fez em mim o que é

Ela é o sol e a lua que não nascem ou se põe
Que me ilumina e irradia – de noite, de dia!
É a luz do meu antes displicente ser

Ela é o horizonte que vejo e tenho como certo
Meu ponto de chegada e partida
Em paz comigo mesmo, fez-me renascer

Ela é aquela que me desafia, que critica
Que me faz ter certeza das incertezas
Que me ouve, que não permite que eu me sinta mudo

Ela é aquela que por onde passa
Muda conceitos, corolários, opiniões
E mudou por completo minha visão de mundo

Ela é aquela sem definição
Uma projeção perfeita de mim mesmo
De tudo que mais ardentemente desejo e prezo

Ela é o resultado direto e correto
De longas súplicas que fiz a Deus
E por ela, em reverencial silêncio e de joelhos, eu rezo

Ela é despertares suados de sonhos aflitos
Paisagens paradisíacas e amontoados de livros
É a minha natureza mais abissalmente profunda

Ela é o tudo que dilacera o nada
É o que quiser e o que desejar ser quando quiser
E a sua presença simplesmente transborda, inunda

Ela é a primeira e a última dose
Afrodisíaco dentro e fora de quatro paredes
Real e absolutamente despudorada quimera

Ela é a força que eu não tenho
Não por acaso faço até o impossível
Para ter-me em suas mãos – quem me dera!

Ela é o choro do eu menino assustado
Que se cala com um abraço, com um beijo
E que em seguida sorri com a pureza de uma irresistível criança

Ela é a minha escolhida – impossível resistir a isto!
Por esses e tantos outros motivos
Derradeira bem-aventurada bem-aventurança

Sim, ela é a uma que eu não previa
Aquela que eu sempre quis ter
Sem saber que como ela algo parecido existia
Infinitas possibilidades me fez conhecer

E hoje, agradecido, entorpecido
Torço para que a uma que pela minha vida caminha
Aceite-me para sempre em seus ouvidos
Ouvindo-me dizer: “É minha! É minha!”

E que a uma, de alguma forma
Veja nesse homem para lá de comum
Que mesmo ela sendo a uma
Eu não sou apenas mais um.

A uma, eu sou seu um.

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Cinzeiro

Não te assustes, meu bem

Se um dia, ao acordares

Vires o meu lado em nossa cama

Frio e vazio

Fui-me

Precisei ir

 

Sem aviso formal

É fato

Mas vou-me por não me sentir útil

Vi minha vida por teu amor

Por nosso amor

Por nossos planos

Muitos, muitos anos

Ser rasgada a seco

Deixada ao vento

E com fome e frio

Perdida no tempo

Tudo feito e desfeito

Esforço impróprio

Vida pueril

Vida inútil

 

Mas declaro

Que fique claro

Que não sou algoz

E muito menos vítima

Mas eu sou fogo

Sou brasa

O combustível

O comburente

Sou a flecha

E o arqueiro

E não cigarro

Ou mero trago

Ou mesmo cinzas de qualquer cinzeiro

 

Aproveito a oportunidade

Para oferecer-te minhas sinceras desculpas

Não sei exatamente onde errei

Se foi por dar-me como me dei

Ou se foi por sonhar como sonhei

Fato é que agora sei

Que eram meus

E tão somente meus

Os nossos sonhos

E neles nos amávamos

E eu amava

Eu sempre amei

 

E na solidão agora desacompanhada

De minhas horas

Teu nome em minha memória

Saudade que condena e sufoca

Nevoeiro de lágrimas

Que derramam-se em um livro

De uma só página

Um resumo do nosso amor

“Acabou”

Era só fumaça

Mais nada.

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Amor ou morte

Caminhos

Escolhas

Como folhas

Flutuam ao vento

 

E o tempo

Implacável

Indomável

Segue alheio ao teu diferimento

 

Sonhos de uma vida inteira

De uma vida inteira cativos

Resplandescendo a teus pés

E pelos teus pés comedidos

 

Posto que a vida apresenta chances

A tu que tens da vida fugido

Ainda que tenhas decretado a morte

De tudo que ainda há para ser vivido.

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Tempo

Relativo

Constrito

Infinito

Eterno

 

Tempo

O senhor de todos

Os momentos

Razão das lembranças

E dos esquecimentos

 

Acreditando ou não

Ainda há tempo

 

Pois que fique claro

Que aguardo ansioso –

Confesso! –

Não sou brisa leve

Sou retumbante vento.

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Nada

Tanta gente com pressa de tudo

E o essencial sendo deixado na calçada

Um dia o vento e a chuva levam

Quem sabe um dia

Não restem nem vestígios do

 

 

 

 

 

 

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Um pouco de vento

Andando pela rua

Mente distraída

Ausente do mundo

Corpo do avesso

Sinto teu perfume

E respiro fundo…

Continuo vivo

Reconheço

 

Em casos extremos

Da mais pura saudade

O vento tráz de onde for

O que remete à felicidade

 

Grande benfeitor

Esse tal vento

Que distrai a saudade

Salva dias

Cura feridas

Enquanto não acontece

O que faz falta

O que não se mata

A todo momento.

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Deferido

Há tempos

Que os ventos

Não conspiravam

Na mesma direção

 

Há tempos

Que as palavras

Algumas vezes duras

Não caiam como benção

 

Há tempos

Que os sonhos

Que deixavam sem dormir

Não traziam consolação

 

Há tempos

Que a saudade

Era desespero

E não consolação

 

Há tempo

Ainda há muito

 

Tempo

 

O tempo do amor

Para nosso contento

Obteve, finalmente

O seu deferimento.

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