As saudades me fazem viver

Uma das coisas que descobri é que algumas pessoas seguem comigo mesmo que já tenham ido para o céu ou estejam longe fisicamente. E elas mostram sua presença do nada, em situações cotidianas e corriqueiras.

Comer aquele queijo, andar naquela praia, ir naquele parque, tomar aquele café, trocar aquele sorriso, realizar aquele sonho que seu irmão nunca teve a chance de viver, e assim descobrir que fica sempre um pouco do outro dentro de mim, e que sempre fica dentro do mim um pouco do outro, independente da minha vontade.

Quando eu era mais novo, escrevi um “livro” (eram páginas de uma impressora devidamente encadernadas). Dediquei este “livro” a meu irmão, que foi para o céu com apenas 8 anos de idade, com os seguintes dizeres:

“Tempo e distância são nada entre nós.”

Continuam não sendo. Nunca serão.

De vez em quando, eu fico triste. Não estou falando do meu irmão especificamente, mas porque me parece que envelhecer é acumular saudades. E toda a vez que eu sinto qualquer tipo de saudade, eu acredito mais ainda em Deus. A saudade me faz acreditar na vida eterna, no paraíso, e me faz acreditar que, algum dia, de alguma forma, eu vou voltar a sentir e a ter bem perto de mim aqueles que deixaram partes da minha vida congeladas quando se foram ou se afastaram.

E ainda assim, eu quero viver todas as minhas saudades. Delas não me desapego, porque a saudade me faz lembrar nos meus piores dias que em outros tantos eu fui muito, muito feliz. E que assim será até o fim dos meus dias. Sem nenhuma saudade – e são muitas, muitas – eu teria certeza de que eu nunca soube o que é viver.

Vim trazer verdades 53

Para ser bom, um churrasco não precisa ser luxuoso. Se for, ótimo, mas confesso que os melhores que já fui (e foram muitos) foram na casa de amigos e até em lugares inusitados, com churrasqueiras improvisadas e tudo mais. E é claro que no final todo mundo teve que fazer uma vaquinha para pedir mais cerveja pelo Zé Delivery (ou para o Seu Zé do bar da esquina).

Não havia picanha uruguaia, mas havia aquelas rodas de amigos de anos que só falam besteiras (faço questão de fazer parte delas) que se zoavam e zoavam os outros o tempo todo. Não havia pessoas famosas ou alecrins dourados (estes sequer eram convidados), mas por diversas uma amiga maravilhosa levou uma mulher maravilhosa que me fez babar. Não havia utensílios especiais caríssimos para churrascos, mas havia toneladas de amor wagyu em todos os cantos. Simples, bem simples, com as crianças brincando por perto em um ambiente super seguro. Até lugar para os bêbados dormirem em paz na grama havia! Enfim…

Parabéns a todos os churrasqueiros e aos verdadeiros apreciadores de churrasco! Esta é a nossa história e eu amo muito tudo isso.

Vim trazer verdades 51

Após o fim de um relacionamento, ficam as coisas ruins e tristes que impedem a reconciliação, e também as coisas boas que de alguma forma parecem impossíveis de serem vividas novamente.

As coisas ruins e tristes são processadas e esquecidas com o tempo. Já as coisas boas… Com o tempo, são guardadas na lista de boas memórias, com muito carinho, para que a vida siga em frente.

Na estrada

Estou seguindo nesta estrada

Retas e curvas

Não deixo escapar nada

E o melhor de tudo

É que estou de carona –

Dia e noite, na madrugada –

E ainda assim me dirigindo

Por esta jornada

Que nunca se repete

E que nunca, nunca

Se acaba.

Distante

Quem é você?
Onde você estava,
Quando nosso amor morreu
E de nós não sobrou nada?

Saia dos meus sonhos!
Largue a minha mão!
Porque eu quero voar
E ser poeira na imensidão.

Que sejam lugares distantes,
Onde nada aconteceu,
Onde nunca existimos,
Onde nunca fomos você e eu.

Me deixa gritar
Os gritos que ninguém ouve,
Me deixa entender
Que o amor sempre esteve longe.

Dói demais dizer
Adeus para o que não existe,
Saber que eu era seu
E que por isso eu era triste.

E se você nunca mais me ver,
É porque me tornei invisível,
Andando leve pelas nuvens,
Sonhando com o que é possível.

Talvez seja melhor assim,
Eis aí o meu destino,
E esteja eu onde eu estiver,
Estarei abraçado comigo.

O nada é o tudo

O amor não acaba de repente. Vai desaparecendo aos poucos, em câmera lenta, e não morre. Simplesmente deixa de existir. Se transforma em nada.

Você pensa em ligar, em mandar mensagens, mas como você sabe qual rumo a conversa irá tomar, dá preguiça. Vira para o lado e dorme.

Você vê uma foto que já disse muito e que já foi até a foto de fundo do seu celular, mas simplesmente a apaga. Não há porque mantê-la.

Você ouve aquela música, que era a música do casal, e não cai uma única lágrima. O peito não aperta. Nada de borboletas no estômago. A música não mais desnuda a tua alma. Por melhor que seja, vira só mais uma entre tantas de uma quase infinita playlist.

Você muda de assunto quando falam do passado. Não porque não goste de falar de algo que foi doloroso em tua vida, mas porque não há mais nada a ser dito. Você não quer mais a tua presença ou a tua imagem associada com quem ficou para trás.

Você sente aquele perfume antigo, que já te disse tanto, se tornar apenas mais um entre tantos. Se liga em novos cheiros, em novos gostos, em novas combinações, e fica animado com as possibilidades.

Você se deixa tocar por outra pessoa. Beija, abraça, fala de tesão, paixão, amor. Vai para a cama e não sente a sensação de estar traindo alguém. Está só vivendo e sendo feliz. Sem pressa. Sem desespero. É você com quem estiver com você e mais nada.

Você reencontra velhos amigos, marca 300 eventos, e em cada um deles se sente plenamente presente, integral. Esquece onde deixou o celular. E se termina a noite chorando, é porque bebeu demais e lembrou da tua falecida bisavó dando sermão no grupo de crianças chatas das quais você fazia parte.

Você se olha no espelho e se sente bem em tua companhia, tranquilo, em paz com a tua consciência e em paz com as tuas escolhas e lembranças. Está seguindo em frente sem olhar para trás.

Difícil escrever um texto sobre o que não mais existe. Ainda assim, este texto é sobre o nada, porque foi no nada que me encontrei e em seguida encontrei tudo.

Em todo lugar

Já disse tantas vezes que te amo

E todas as vezes que disse que te amo

Foram pouco perto do meu querer.

E hoje, que não mais digo que te amo

Amo-te ao ponto de sequer precisar dizer que te amo

Posto que meu amor por ti está no canto dos bem-te-vis

Lá, ali e aqui.

P.S. 32

Com o tempo, você descobre que perdoar a si mesmo pelo que permitiu que os outros fizessem com você é muito mais difícil e complexo do que perdoar os outros.

Um brinde!!!

Me perdoes por não olhar-te
Como se fosses o prato do dia.

A minha fome não é de comida:
Eu preciso alimentar meu coração
Dar de comer a minha alma
E nada disso se dá
Em uma só refeição.

Somos incompatíveis
Não porque nos falte afinidade –
Que mais do que há, diga-se de passagem –
Mas porque o que tens para me oferecer
É justamente o que não preciso
E o que tenho para te oferecer
Soa-te como completa falta de juízo.

Não é uma crítica –
Que fique claro –
São duas almas buscando um caminho
Que vamos seguir como se entre nós
Nada tivesse acontecido
Até – quem sabe? – tudo acontecer de novo
E de novo, e de novo, e de novo, e de novo…

Também

Não preciso de ti para nada
E sei que não precisas de mim para nada também.

Somos despretensiosamente voluntários
Das longas conversas,
Das longas caminhadas,
Dos longos abraços,
Dos longos beijos,
Dos corpos em chamas,
Das nossas almas em chamas também.

Sei que tens receio de dizer:
“Eu te amo”,
E eu tenho também.

Mas se houver verdade nisso,
Diante de todos os indícios,
Saiba apenas que eu também.