Iluminados

Tudo era feito de luz
E nossos caminhos tão iluminados
Que de olhos fechados conseguíamos ver

Não eram as luzes da cidade
Eram as luzes da felicidade
E todos os outros conseguiam perceber

Nos viram
Nos vimos
Fomos marcados
Iluminados:
Só nos basta ser.

A música que eu não consigo ouvir até o final

Sim, faz 15 anos. Eu estava no meio de uma aula quando fui informado que meu pai havia falecido. Eu ajoelhei pela primeira vez na minha vida não por clemência a Deus, mas por pura e completa falta de força. Acho que meu coração parou naquele dia, ainda que por um mísero segundo.

Meu pai era tão importante (para mim) que foi sepultado em um feriado. Ainda me lembro de estar no meio do parque em Pelotas, na semana da Farroupilha, quando um garçom veio me perguntar se eu era dali, se estava me divertindo. E eu disse: “Vim sepultar o meu pai.” O garçom chorou, eu chorei, quem ouviu chorou. Era triste. É triste. Era um adeus terreno.

Associei a morte de meu pai a uma música, composta por um baterista (Mike Portnoy) por conta da morte de seu pai. Eu não consigo ouvi-la até o final. Só trechos e mesmo assim me emociono.

Não choro pelo luto. Choro pela saudade mesmo. Um dia a gente se encontra, meu velho! Certeza!

A coisa mais linda

De todas as coisas lindas da vida –
E na vida não faltam coisas lindas –
A vida é sempre das coisas a mais linda.

Ora feliz, ora triste
Ora crente, ora descrente
Tudo permanece, tudo existe
Tudo permeia, tudo insiste
Tudo é porque é
Tudo é vivo
Tudo pulsa
Tudo.

Tenho medo de perder a vida
Não porque tenho medo da morte,
Mas porque há muita sorte
Em se poder ter a vida.

Que os sorrisos invadam!
Que as lágrimas corram soltas!
Pois tudo é parte das coisas lindas
E do privilégio que é poder achar que são lindas
As coisa mais lindas que são a própria vida.

Água

O dia nublado não me impediu de andar. O suor escorria pela minha face e fazia com que meus olhos queimassem como se estivessem literalmente em chamas. Sede. Máscara. Quiosques fechados. O calçadão da Praia de Icaraí definitivamente havia mudado. “Até quando? Será que algum dia tudo será como antes?”, eu me perguntava, e entretido nessas e em outras tantas perguntas, muitas delas sem resposta, eu continuava a andar.

Sem me dar conta, percorri 12 Km. Andar é meu vício. Acabei ficando com sede. Eu precisava beber alguma coisa. Água de coco era o meu desejo, mas onde comprar? Fui até uma lanchonete só para me dar conta que havia esquecido meu cartão de crédito em casa. “Merda!”, pensei. E agora?

O prédio dela era do outro lado da rua, mas aparecer sem avisar parecia arriscado. Resolvi usar meu telefone celular para cumprir o seu propósito original: telefonar.

– Sabe o que é? Estou com sede e em frente a sua casa. Esqueci meu cartão de crédito em casa… – disse eu meio sem jeito, só para ser interrompido.

– O velho golpe do cartão de crédito… Deixa de frescura e sobe! – disse ela às gargalhadas. Não me contive e ri também. Inevitável.

Entrei no elevador e me dei conta que, além de tudo, estava completamente descabelado, mas enfim… Já não tinha mais jeito. Eu precisava mesmo era de algo para beber e com certeza também de um banho! Tinha me esquecido desse “detalhe”.

Toquei a campainha e esperei um pouco. Nada dela atender. Toquei de novo, e percebi que a porta estava entreaberta. Novamente me flagrei no ritual do tirar o tênis, tirar a máscara, passar álcool em gel nas mãos, deixar o álcool em gel cair no chão, deixar o telefone cair no chão, passar álcool em nas mãos novamente… Essa pandemia realmente tinha deixado o básico do elementar muito mais difícil.

Entrei procurando-a. Ela me deu um susto! Estava atrás da porta, sorrindo, enrolada em uma toalha branca.

– Eu estava indo tomar banho quando você me ligou. Está aqui sua água. – disse-me ela com um sorriso aberto, enquanto estendia sua mão para me oferecer um copo cheio de água gelada. Uma mulher linda, me oferecendo um copo de água enrolada na toalha… Miragem no meio do deserto? Não. Era real. Estava acontecendo.

– Não quero atrapalhar… Vá lá tomar seu banho. – falei enquanto mirava o teto, completamente maravilhado com o prazer de um simples copo d’água.

E, de repente, ela cutucou minhas costas. Não disse nenhuma palavra. Apenas me cutucou. E quanto eu me virei para trás, não havia mais toalha. Ela estava nua. O sorriso continuava estampado em seu rosto. Apenas me estendeu a mão e disse:

– Estranha coincidência… Parece que você também está precisando de um banho! – e foi me guiando até o banheiro, enquanto eu reparava nas suas curvas. Havia um gingado, um algo diferente. Ela é muito sensual. Eu tenho certeza de que ela tem certeza disso.

Fui me despindo sem pressa. Ela dentro do box, de porta aberta, já com parte do corpo molhado, e eu em busca de uma pasta de dentes ou algo assim. Havia Listerine em cima da pia! Minha salvação! Ela riu alto com meu gesto inusitado.

– Sempre pensando nos detalhes… – ela me disse ao me puxar para dentro do box.

– Mas não são os detalhes que fazem toda a diferença? – respondi já com minhas mãos passeando pelo seu corpo. A resposta dela foi breve e veio no pé do meu ouvido, quase que como uma confissão:

– Safado…

O banho não foi muito rápido. Até porque começou como banho e virou algo mais. Muito mais. E continuou no quarto, o que eventualmente nos levou de volta para o banheiro, para só então irmos para a sala. Terminei como cheguei: com sede. Tive que pedir outro copo d’água.

Decidimos também pedir uma pizza. Eu efetuei o pedido por um aplicativo. Obviamente, a sacana teve que me perguntar se eu iria dizer novamente que esqueci o cartão de crédito em casa para ela pagar a pizza… Tivemos uma crise de risos. Foi difícil, mas conseguimos escolher a pizza: Zucchine.

Arrumamos a mesa (mentira – ela arrumou), e foi o tempo certinho da pizza chegar. Falamos sobre a vida, sobre alguns de seus processos, sobre minha vida louca de consultor, e não pude deixar de perceber o quão atenta ela estava ao que eu dizia. Ela fazia questão de ouvir palavra por palavra. E eu pagava na mesma moeda, claro, até porque ela realmente falava coisas muito interessantes. Não era um favor ouvi-la. Ela é uma especialista na sua área de atuação.

– Escuta… Você me diverte, sabia? Você vai do papo descontraído ao sério em segundos… Me olha nos olhos. Fala com desenvoltura. Você é bem diferente do que se encontra no mercado… – disse ela com um sorriso disfarçado.

– Sinceramente? Há muitos como eu. É só saber onde procurar… – disse eu diante de tantos elogios explícitos, quase que sem graça.

– Esse tipo de coisa a gente não procura. A gente simplesmente acha. – E me deu uma piscada enquanto se levantava para levar os pratos até a pia, usando apenas uma camiseta branca de algodão. Básica. Chique. Na dela.

Fiz questão de lavar os pratos (odeio lavar louça!). Fomos para o sofá. Barriga cheia, uma brisa agradável. Ela queria terminar de ver Dark, e eu já tinha desistido da série há tempos! Não disse isso, claro. Apenas adormeci na base do cafuné.

Antes de ir embora, tomamos um café. Ela acabou confessando que Dark a estava deixando entediada, mas que “iria ver até o final para poder criticar com propriedade”.

Perguntei se ela queria mais pizza. Eu queria. Enquanto eu esperava o Uber, peguei mais uma fatia com uma toalha de papel. Antes de sair, dei um abraço demorado e um beijo nela, e perguntei:

– Se eu tiver sede novamente, sem cartão de crédito, perto de sua casa, posso voltar outro dia?

– Sede ou fome. Eu sou muito caridosa! – e explodimos em uma gargalhada que ecoou pelos corredores do edifício.

De outro mundo

Há tantas poesias e tantas memórias,
Tantas histórias que fazem o fim
Não ter fim.

E eu tinha medo disso.
Medo de ser consumido pelo passado,
Pelas recordações,
Pelos momentos muito mais do que felizes
Que vivemos juntos.

Hoje, não mais.

Aprendi tanta coisa,
Experimentei tanta coisa,
Vivi tanta coisa boa,
Cresci tanto a teu lado…
Como posso ignorar isso?

O fim foi estranho –
Sabemos disso.
Foi um fim sem fim,
E assim, precisei criar um,
E nele você foi abduzida por ETs.

Talvez eles estejam fazendo experimentos
E estudando o seu DNA,
Mas os ETs gostaram tanto de você –
Feito eu –
Que decidiram não te devolver.
Eu também não devolveria,
Confesso.

Talvez você esteja me vendo de onde está,
Mas isso não importa.
A menos que os ETs tenham lavado sua memória,
Sei que lembra das coisas como eu me lembro,
E isso que é o importante:
Mesmo ausente, ser presente na vida de alguém.

Que os ETs cuidem bem de você.
Você merece e sim, eu sei:
Você não é mais do meu mundo.

Tequila

Nós olhávamos o pôr do sol da marina. Nas mãos, uma garrafa de Tequila daquelas que são vendidas a preço de ouro, muito embora sejam de prata (sem trocadilhos). Na minha cabeça, o momento pedia nada menos que uma añejo. Paciência.

“Vamos ver que aguenta mais shots?”, com direito à mãos cheias de amendoim e água entre um shot e outro, claro. Combinado.

Chegamos até o terceiro shot falando da vida, de assuntos completamente aleatórios. O sol já havia se retirado. Havia alguns mosquitos, mas hey… Histórias reais não são perfeitas.

No terceiro shot, paramos. A minha responsabilidade era grande. Eu tinha que, no mínimo, empatar. Felizmente, ela disse que não sabia como a Tequila agia no corpo dela, e achou que estava tudo indo bem demais. Fácil demais. Fascinante demais. Eu só concordei. De fato eu estava sentindo o mesmo.

O vento fazia seu cabelo castanho abraçar sua face. Deixava-me hipnotizado de alguma forma. Eu simplesmente não conseguia parar de olhar, e ouvia atentamente cada palavra que ela dizia. Cada sílaba, cada vogal, cada consoante… Eu ouvia também a respiração dela, e o vento gelado no tímido inverno do Rio de Janeiro fez nossos corpos se aproximarem por instinto. Sobrevivência, achava eu. Eu estava enganado.

Sem perceber, eu estava a poucos centímetros da sua boca. Lábios carnudos, cheios de vida. Deles saíam palavras que me embebedavam, me hipnotizavam. E de repente me dei conta que meu corpo todo era só ouvidos. Ouvidos só dela. Querendo ou não eu era dela pelo menos naquele momento, muito embora não me desse conta disso.

E eu tentei roubar um beijo, muito embora não seja possível roubar aquilo que já é seu. E ela retribuiu. Os hálitos inflamáveis explodiram, até que sua mão direita segurou o meu queixo e ela me disse: “Se importa se continuarmos isso sem a Tequila?”

Eu concordei, claro. Pensei que havia avançado algum sinal vermelho, mas continuamos a conversar. Depois de algum tempo, cada um foi para a sua casa de Uber, e eu achei melhor não tocar no assunto, pelo menos não naquela noite. Melhor deixar para pensar nisso depois da Tequila ir embora do meu corpo.

No domingo, decidi fingir que nada havia acontecido. Eu lembrava do beijo, dos cabelos, dos lábios carnudos, de tudo, mas achei melhor afundar meus pensamentos e desejos em alguma série do Netflix. Qualquer uma. Melhor. Menos perigoso.

Na segunda-feira, ela me ligou e eu não atendi. O dia foi muito corrido. Sem perceber meu telefone acabou ficando no modo silencioso, e tudo que me restou foi enviar uma mensagem via Telegram dizendo que eu não tinha me dado conta da ligação dela. A minha mensagem foi visualizada e ignorada com sucesso.

Hoje, terça feira pela manhã, o telefone tocou novamente. Era ela e eu estava em uma reunião de trabalho. Por instinto, coloquei o meu headset no mudo e atendi a ligação.

Ela não me disse oi. Só me disse o seguinte: “Sábado, na minha casa, sem Tequila?” Percebi o tamanho do peso que eu carregava em minhas costas e disse um firme sim. Eu merecia o sim. Ela também. Voltei para a reunião de trabalho com frio na barriga. Radiante. Feliz.

Ainda é terca-feira. No sábado, não vai haver Tequila. Só ela. E no que depender de mim, vou tomar um porre disso. Nada melhor que se embebedar sem uma gota de álcool sequer.

Anteparo

Parece que cresce
Que remexe, que tece
Que cria raízes
Mas é fotografia
De álbum antigo
De melancolia

Só que é tão presente
Que quando ausente
Não deixa nem respirar
E quando presente
Faz o não coerente
Para a razão se ausentar

Talvez seja eterno
O jeito mais que doce
De não falar de amor
De um amor tão calado,
Que berra pecados,
Que urra e canta…

A beleza de amar
O que o torpe destino
Não quis coroar
Pois nem coroa apresenta
E seu cetro só ostenta
Lágrimas de um trovador

E nesse império
De luxúria e mistério
Rego com lágrimas o que plantei
Um sopro de vida
Uma divina rotina
De carinhos não meus

Quem sabe outra chance
Outro dia, outro lance,
Com a sorte desnuda
Feito meu peito rasgado
Pelos lábios molhados
Que eu afirmo: são meus.

Que sirva de aviso –
Não há prejuízo
Em amar até morrer
Pois até no desamparo
O amor é o anteparo
Dos males do eu.

coracaopaixao

Amêndoas

Eu estava com ela. A mulher que eu amava. A mulher pela qual eu poderia fazer tudo. Tudo. A mulher da minha vida.

Ela foi tomar banho após nos amarmos, e eu deixei o Spotify ligado. Era uma playlist qualquer. Quis o destino que uma das músicas tivesse um significado especial para mim.

As lágrimas escorreram pelo meu rosto, abundantes. Era a música que me remetia até ela, ao amor da minha vida, nas suas ausências, nos seus distanciamentos sem explicação. E ela me perguntou:

– Por que está chorando?

– Porque essa música lembra o tempo em que ficamos separados e do quanto isso doeu em mim…

Ela me abraçou forte, me deu um beijo na boca, e me disse:

– Que bobagem… Isso tudo já passou… Eu estou aqui, não estou? Eu estou aqui para ficar. Eu te amo. Tudo vai ser diferente.

Nos amamos novamente. Ela usava um óleo único da L’Occitane, com cheiro e gosto de amêndoas. Aquela fragrância invadia a minha alma, a minha razão, todos os meus porquês. Aquela fragrância era ela em carne e osso.

Tempos se passaram. Um presente dela para minha filha fez a fragrância permanecer no ar. Só a fragrância permaneceu. Ela não.

A música ainda toca vez ou outra. As lágrimas também. O cheiro de amêndoas não me remete a nenhuma mentira ou descontentamento. Só me lembro do quão sincero eu fui, do quanto eu amei. Do quanto fui único e verdadeiro. Isso ninguém me tira. Nem o tempo. Nem você.