Questão de sobrevivência

Nossas taças de vinho
No frio do inverno,
Nossos corpos nus queimando
Feito mil sóis no verão.

O beijo na boca,
A prisão entre as coxas,
O ritmado ir e vir,
O descompassar do coração.

Lençóis ensopados,
Desejos e impropérios,
Lascívia escancarada,
Peças de roupa pelo chão.

A tontura repetida do gozo,
A entrega sem mistérios,
A respiração ofegante,
Nossos fluidos em ebulição.

Se foi esse o dia mais frio do inverno,
Me diga,
Como sobreviveremos ao verão?

És tudo que me cinge

Hoje
Meu amor, minha vida
Calhou de me dar a vontade
De escrever uma despedida
Que depois de duas garrafas de vinho
Parece-me a única avenida
Ainda que seja um beco sem saída
Ou trilhos que levam-me ao nada

Há tempos não ouço de ti
Há tempos não toco tua pele
Há tempos não sei de nós
Há tempos…
E parece-me toda uma vida
Dada com os burros n’água

E nesse turbilhão de saudades
Nessas pequenas e diárias eternidades
Por uma última vez
Venho aqui dizer que te amo
E que te amarei para sempre
Todos os dias
Até mesmo nos dias
Em que eu não amar-te-ei:
Dias que não existem

Ad infinitum
Esta, pois, é a minha vontade
Mantém-se a minha doce santidade
Na presença que não se materializa
E que me estrangula de tanta saudade
Esvai-se a minha sanidade
No perfume que deixaste
Em tudo por aqui
E que todos os dias
Pelo vento confirmas e trazes

Amor meu
Onde estão os olhos teus?
Que tanto me iluminavam
Que tanto me diziam
A tua voz que me sorria
O que sem dizer, dizias…

Eu não sei
E de tanto não saber
De mim mesmo estou farto

Dei-te meu mundo
Cada e todo segundo
O que em mim há de mais fecundo
De mais profundo
Se foi…
E sequer sei para onde
Eu mesmo me fui:
Meu destino é ignorado

Não sinto-me sozinho –
Por certo –
Estás sempre por perto! –
E em meu peito
O coração sempre aberto
Clama por teu nome
Que não repetirei aqui
Em memória do que não foi vivido
Em nome do respeito e do zelo
Que sempre nutri e nutro por ti

Hoje
Meu amor, minha vida
É só um dia qualquer
Onde eu homem
E tu que eras
Para ser minha mulher
Não se encontram
E nesse eterno não encontrar
Hoje, morri de saudades
E ainda assim estou aqui
Absorto em minhas flexuosidades

Erguerei outras taças
Farei outros brindes
Conhecerei outras pessoas
Mas, hoje
Tudo que me cinge
Tem o teu nome
E é em memória de ti
Por si
Em dó
Por todas as notas
Que por nós são
Uma única melodia
E só

E a minha faina
É todos os dias –
Mentir
E fingir que nunca –
Profunda e absolutamente –
Eu te conheci
Mas de fato conheço-te…
E conheço-te
Porque vivo-te
E de ti nunca me esqueci.

Praia de Icaraí – Niterói/RJ – Brasil

Ela

Ela acordou cedo como de costume. Seus olhos não disfarçavam a noite mal dormida. Nada que um bom banho, um bom café da manhã e uma boa maquiagem não pudessem resolver. Ela já estava acostumada.

Dormir mal tinha virado rotina. A insônia não aparecia para o mundo, obviamente. Ninguém sabia dela. Para todos os efeitos, ela era uma mulher bem sucedida, livre, desimpedida, com uma carreira brilhante, e cheia de pretendentes de todos os tipos. Todos a queriam e ela sabia muito bem disso. Ela era muito cobiçada e isso de alguma forma a confortava.

Ao chegar no escritório, assinou documentos, reviu planilhas, deu ordens, falou no telefone, fez reuniões presenciais e virtuais… Tudo como de costume. Parou apenas para almoçar um prato fit providenciado pela sua secretária. Pensou até em ir para a academia antes de chegar em casa, mas foi interrompida por um de seus clientes que a convidou para um happy hour. Meio sem saber o que fazer, ela simplesmente aceitou o convite. Afinal de contas, era sexta-feira.

Foram parar em um restaurante suntuoso e ficaram na área do bar. Ele, muito galanteador, ofereceu a ela uma bebida. Ela educadamente recusou. Não era seu perfil beber com clientes e apesar de reconhecer que ele era um homem muito bonito e elegante, manteve-se fiel a seus princípios.

Ele pediu uma cerveja. O barman disse que a cerveja escolhida estava em falta, e ofereceu outra que ele aceitou contrariado, tal como se fosse um especialista no assunto.

Uma long neck em uma garrafa verde foi entregue nas mãos dele. Ela conhecia aquela garrafa. Conhecia aquela marca. Conhecia o gosto, o cheiro. Preferiu afastar esses detalhes de sua cabeça e focar na conversa. “Quem sabe não é a oportunidade de fechar mais algum grande negócio?”, divagou animada.

Então, ele engatou em uma fala cansativa, se vangloriando de seus feitos com a visível intenção de impressiona-la. Ela, por sua vez, não conseguia tirar da sua cabeça as lembranças que estavam associadas aquela cerveja. E ele não a ajudava em nada nesse sentido. A conversa morna embalou o seu cansaço, e mesmo sem se dar conta, ela ficou introspectiva e ausente. Presente fisicamente. Sua alma, nem ela mesma sabia aonde estava.

– Eu não gosto muito dessa cerveja… Prefiro a Stella. Essa aqui é muito forte.

“Não! Essa cerveja não é forte ou mesmo mais forte. Ela só é mais amarga. Inclusive, ela é uma cerveja com menos calorias que as demais.” Mesmo sem estar bebendo, ela começou a lembrar do que tinha aprendido sobre essa cerveja, e os brindes com essa mesma cerveja que a fizeram lembrar de sorrisos, que a fizeram lembrar de conversas… Ele havia ido longe demais mesmo sem ter se dado conta disso. Ele havia disparado nela gatilhos terríveis e insuportáveis.

Ela fingiu receber uma ligação e se afastou. Foi para o canto do bar para falar mais à vontade. Retornou em seguida dizendo que tinha recebido um telefonema de uma prima. Falou a primeira coisa que surgiu em sua mente. O homem ainda se ofereceu para leva-la em casa, mas ela recusou a oferta. Ela precisava sair daquele restaurante rapidamente. Ela estava sem ar, sufocada.

Chamou um Uber. Sentiu um aperto no peito, arrepios pelo corpo, e um desconforto inexplicável. Abriu o WhatsApp. Adicionou um novo contato porque ainda se lembrava do número do telefone apesar de ter feito de tudo para esquece-lo. Se deu conta que permanecia bloqueada.

Ainda a caminho de casa, as lágrimas já escorriam pelo seu rosto. O motorista do Uber perguntou se ela estava bem, e ela apenas balançou a cabeça dizendo que sim. Ela sabia que não estava, mas era teimosa demais para admitir aquilo. “Eu estou bem… Só preciso de um bom vinho e de um banho.”

Ao subir no elevador, no espelho reparou na sua maquiagem borrada, nos seus olhos e nariz vermelhos, no rosto inchado. Se perguntou o motivo de estar assim, e muito embora soubesse da resposta, simplesmente se negou a aceita-la.

Abriu a porta de seu apartamento, tirou os sapatos, jogou a bolsa e as chaves sobre a mesa, e foi imediatamente para o bar. Pegou uma garrafa de vinho e uma taça. Abriu a garrafa de maneira atabalhoada e foi para o quarto. Encostou-se na cabeceira da cama, serviu-se com o vinho e depois de um farto gole foi mais uma vez para o WhatsApp. Ela permanecia bloqueada. Ela achava um absurdo estar bloqueada. “Como ele teve a audácia de fazer isso?”, perguntava-se alterada.

Começou a varrer a sua galeria de fotos, seus emails, mensagens arquivadas. Não havia nada. Ela mesma tinha apagado tudo. “Não é possível! Devo ter me esquecido de apagar alguma coisa!”. A ansiedade havia tomado conta dela e ela não conseguia pensar em mais nada de uma forma minimamente ordenada.

Depois de mais alguns goles de vinho, resolveu ir até o Facebook. A foto dele era a mesma de antes, de quando eles estavam juntos, mas ele não era nem mais seu amigo. A mesma coisa no Instagram. Ela o excluiu. Ela o bloqueou. Mas ela queria saber dele. “Sexta-feira… Aonde ele está? Será que está na cama com outra? Será que ele teria a audácia de fazer isso?”

Partiu em busca de um celular antigo. Lá, ela tinha certeza de que havia conversas arquivadas. Colocou o celular para carregar e foi beber mais um pouco de vinho, na esperança de que o álcool fizesse o seu coração bater de maneira compassada. “Preferia cerveja… Sujeito sem classe!”

Ela sabia o motivo de estar bloqueada. Ela tinha iniciado tudo isso. Ela o bloqueou, o excluiu, o afastou. Ela achava que tinha se libertado. “Ele era um escroto previsível. Ele e aquela maldita cerveja que ele bebia!”

Sim, ele era previsível. Era daqueles que tinha a coragem de dizer para Deus e o mundo que beber aquela cerveja ao lado dela era a melhor coisa do mundo. “Maldito! Repugnante! Cretino! Com quantas ele esteve depois que eu o expulsei de casa? Deve estar falando da cerveja com elas… Que ódio!”

O celular antigo deu sinal de vida e ela foi busca-lo na tomada. Derrubou a taça de vinho no chão, que se espatifou deixando um rastro cor de sangue. Cortou-se levemente tentando juntar os cacos. Nem percebeu. Queria mesmo era o celular, e encontrou o que tanto procurava: milhares de mensagens arquivadas. Tediosos “Bom dia!!!”, enervantes “Cadê você?”, insuportáveis “Durma com Deus!” e repetitivos “Eu te amo!”. E na tentativa de dispersar as necessidades represadas, minimizava os feitos dele: “Ele era um babaca repetitivo. Ele dizia essas merdas todos os dias. Insuportavelmente insistente! Inconveniente! Chato!”

E ele a ouvia por horas! Dava as suas opiniões. Nem sempre sabia o que dizer, mas sempre tentava ajudar de alguma forma. Um homem comum, daqueles que acha que a mulher dele é a mulher mais importante do mundo, e que faz de tudo que está a seu alcance para faze-la feliz.

Ela se lembrava das ligações dele. Algumas ela nem atendia. Ela sabia que ele ligaria de novo. Ela achava que ele era uma espécie de cão adestrado. E lá estavam as ligações perdidas dele no celular antigo. Eles deviam se falar umas dez vezes por dia. Era tudo insuportavelmente previsível. Era tudo… Um saco!

E ela encontrou uma foto dos dois. Uma que ela curiosamente se esqueceu de apagar. Ele nem era tão bonito, mas era bom de papo. Ela nem se reconheceu na foto. Estampava um sorriso enorme e estava com uma porcaria de um copo de cerveja em sua frente em um boteco, comendo carne de sol com aipim. Logo ela, a que não bebe cerveja. “Que foto é essa? Por que nela eu pareço estar tão feliz? Por que não estou assim agora?”

E voltou para as redes sociais no seu telefone atual. Foi no Facebook de amigos dele para ver se encontrava algum vestígio. Qualquer coisa que fosse! Queria saber se ele estava vivo! Nada! Até porque ela mesma excluiu todos os amigos dele. Ela fez questão de apagar todo e qualquer vestígio da passagem dele na sua vida.

Ela levou sua mão até a boca como que se estivesse assustada com o seu choque de realidade. Sentiu o gosto de sangue, e foi então que se deu conta de que havia cortado o dedo nos cacos da taça. Começou a beber o vinho direto da garrafa. Sentiu calores. Ficou nua. Ficou com raiva. Ficou excitada. Gozou pensando nele. Uma, duas, três vezes. “Por quê? Por que ainda lembro de você? Por que ainda sinto as suas mãos no meu corpo e desejo você dentro de mim? Por quê? Filho da puta! Desgraçado!”

Embriagada, pensou em ligar para ele. Desistiu. Já era tarde. Sem saber o que fazer, ajoelhou-se no chão, ainda nua, ainda encharcada, e começou a rezar desesperada. Lembrou-se de Deus. Sentiu-se ridícula. Finalmente, sentiu-se. Era exatamente disso que precisava.

Foi até o banheiro tomar um banho sentindo como que se uma lança atravessasse seu peito, vivendo a plenitude do futuro que criou para si mesma. Viu-se sozinha como nunca havia se visto. Tentou lembrar o porquê de tê-lo mandado embora. Não conseguiu. Lembrou-se apenas de todos os motivos que não havia visto ou se negado a ver para nunca tê-lo deixado ir, e do quanto ele pediu inúmeras vezes para ficar. Ele a amava profundamente e sempre fez questão de deixar isso claro em atitudes e palavras.

Repetiu seu nome em voz alta. Lembrou-se de como ele a chamava e do dialeto que a intimidade entre os dois havia criado. Ouviu perfeitamente a voz dele chamando seu nome e confessou para si mesma: “Eu o mandei embora porque eu o amava. Ele me deixava vulnerável. Eu ainda o amo enlouquecidamente. Só sei disso e de mais nada.”

E foi dormir. Dormiu bem. Dormiu abraçada com a verdade. Depois de muito tempo, dormiu finalmente bem acompanhada.

Sem palavras

Você me conquistou no dia em que eu precisei ir
E sem palavras você me disse: “eu te espero”

Acabei por voltar de onde nem era o meu lugar
E sem palavras você me disse: “eu te quero”

E por fim, trocamos olhares tomando vinho no chão da sala
E sem palavras você me disse: “eu te amo”

Estou até agora sem palavras
E eu não sou de ficar sem palavras

Mas mesmo que eu tivesse todas as palavras
Meu coração resiste e ao mesmo tempo insiste
Para que eu lhe diga sem palavras: “eu também”.

Não mais és

És o sonho que mais foi sonhado,
És o desejo que mais foi desejado,
És a loucura, a sanidade, a realidade, o devaneio,
És tudo que eu nao sabia que me faltava ou sobrava,
És tudo que eu sequer sabia que existia,
És o fim, o princípio e o meio.

Mas hoje,
Quando toca-me a pele o sol, a chuva, a brisa e o vento,
Quando chega as minhas narinas o aroma inebriante de um café,
Quando degusto o vinho maturado na mais incandescente saudade,
Quando ouço a música que me faz arrepiar a pele da alma,
Quando vejo-te mais perto, de perto, por perto…

Não posso mais dizer que és
E disso não me lamento:

Ouço o universo dizer que somos.

Isso não, obrigado

Em 2001 ou 2002 (não lembro ao certo), eu alugava uma vaga de garagem que pertencia a Associação Brasileira de Sommeliers. A vaga ficava no mesmo edifício comercial em que eu trabalhava, e como a empresa para a qual eu trabalhava pagava o aluguel, melhor impossível.

Pelo menos uma vez por mês eu tinha que ir até a sala da ABS para pagar o aluguel e depois pedir o reembolso. Numa dessas, me deparei com um coquetel. Como eu estava de terno, parecia um convidado, mas na realidade eu só estava mesmo é cansado e louco para chegar em casa.

Após efetuar o pagamento, um senhor muito educado que eu não conhecia se aproximou de mim com uma taça de vinho, me oferecendo. Eu disse que estava de estômago vazio (não bebo de estômago vazio), e ele me ofereceu uns canapés. Aceitei. Bem gostosos por sinal.

Conversamos não lembro sobre o que, e ele insistiu para que eu provasse o tal vinho. Provei. Sabe quando você acha algo uma bosta? Pois bem… Ele me perguntou o que eu tinha achado, e eu gentilmente disse que não era exatamente algo que eu consumiria habitualmente. E então, ele soltou a seguinte pérola.

“É que seu paladar ainda não está preparado para apreciar bons vinhos.”

Bebi o que restava na taça para não fazer desfeita, e discretamente fui embora. Comprei uma Coca-Cola em uma lojinha que ficava embaixo do prédio e fui para casa.

No trajeto, pensando sobre o acontecido, aprendi a lição: se eu preciso me preparar ou ser preparado para dizer que uma coisa é boa, essa coisa não serve para mim. Eu tenho meus gostos, meus valores, minha personalidade, meu caráter. E se isso significa que devo caminhar sozinho em determinados momentos, estarei em excelente companhia.

Feito um bom vinho

Que o brinde distante
Se torne apenas
Mais um motivo
Para brindarmos ao vivo
Pelo que achávamos
Que tínhamos
Pelo que achávamos
Que não precisávamos

Tempos difíceis
Corações tristes
Almas amoadas…

Mas eu estou aí
Tu estás aqui
Não percebes?
É tudo temporário

E talvez seja esse
O grande detalhe:
Tudo é temporário
Nada é de fato nosso
Mas o que sentimos
É do mundo
É o próprio mundo
É a nossa vida
É a nossa coragem

E que nossos corações –
Ora desnudos –
Encontrem-se em sonhos
E que acordemos risonhos
Com menos dúvidas
E com algumas –
Ainda que poucas –
Certezas
Que espantem as tristezas
Feito fartos goles
De um bom vinho.